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ARTIGO

A comunicação começa de dentro para fora

Uma boa ideia pode perder força antes de chegar ao público. Neste artigo, falo sobre a forma como a comunicação entre equipas, a clareza dos briefings e as decisões de quem lidera influenciam aquilo que uma marca apresenta ao mundo.

Antes de uma marca falar com o público, há uma conversa que precisa de acontecer dentro da própria organização: o que queremos alcançar, com quem precisamos de falar e o que estamos dispostos a fazer para lá chegar?

Digo muitas vezes que a comunicação começa de dentro para fora porque, no meu trabalho, vejo como essa conversa influencia as decisões criativas. Uma intenção pode estar perfeitamente clara para quem dirige e chegar incompleta a quem tem de lhe dar forma. Pelo caminho, perde-se o contexto, ficam perguntas por fazer e cada pessoa avança com uma interpretação diferente do que é necessário.

Quando isso acontece, podemos estar a avaliar a mesma proposta com critérios que nunca chegámos a discutir.

Para uns, a prioridade é dar notoriedade à marca. Para outros, explicar um serviço ou provocar uma resposta imediata. Todos podem ter razões válidas. Mas precisamos de decidir o que aquele trabalho tem de cumprir. Caso contrário, vamos pedir à mesma ideia que resolva tudo, acrescentando mensagens e alterações até se tornar difícil perceber o que queríamos dizer.

É aqui que, para mim, a comunicação interna começa a ter consequências na qualidade criativa. A falta de uma direcção partilhada pode enfraquecer uma ideia muito antes de ela chegar ao público.

Defendo briefings escritos e discutidos com as pessoas envolvidas, incluindo quem vai tomar as decisões. Um briefing deve permitir compreender o problema, estabelecer prioridades e dar à equipa uma base sobre a qual possa trabalhar. Deve também tornar visíveis as dúvidas que ainda precisam de resposta. Escrever ajuda-nos a perceber se aquilo que parece evidente na nossa cabeça faz sentido para os outros.

Quanto melhor compreendemos o problema, mais condições temos para explorar soluções. Podemos propor um caminho inesperado e explicar o que o torna pertinente. Podemos discutir uma escolha sem depender apenas do gosto de cada pessoa. E podemos reconhecer quando uma ideia interessante não responde àquilo que a marca precisa naquele momento.

Quem dirige a comunicação tem um papel decisivo na criação dessas condições. Cabe-lhe transformar intenções em objectivos concretos, explicar as prioridades e definir responsabilidades, prazos e momentos de validação. Cabe-lhe também garantir que a informação circula nos dois sentidos: que a equipa recebe orientação e que as dúvidas de quem executa chegam a quem pode decidir.

Esta responsabilidade estende-se à relação com a agência. A pessoa que faz essa ligação precisa de ter contexto e apoio para conseguir esclarecer questões. A agência, por sua vez, tem a obrigação de perguntar, organizar o seu processo e fundamentar o que propõe.

Não pode ser amarelo só porque sim.

Se defendemos uma escolha, temos de conseguir explicar a sua relação com a marca, com o público e com o objectivo do trabalho. Os resultados disponíveis devem informar esse raciocínio. Quando estamos a propor uma hipótese que precisa de ser testada, devemos assumi-lo e explicar como a vamos avaliar. A confiança também se constrói com esta transparência.

É igualmente necessário dar espaço à experiência de cada equipa. O cliente conhece o seu negócio e a realidade em que opera. A agência traz competências e uma perspectiva que podem ajudar a encontrar outros caminhos. Para que essa colaboração produza valor, ambos precisam de conseguir ouvir uma opinião diferente e discuti-la com abertura.

Estar de acordo sobre o objectivo permite discordar sobre a solução. Essa discussão interessa-me: obriga-nos a pensar melhor, a justificar escolhas e, por vezes, a mudar de ideias. O critério deve continuar a ser aquilo que serve a marca.

Também é preciso decidir a tempo. Cada decisão deixa um determinado espaço para desenvolver e executar o trabalho. Quando chega tarde, esse espaço diminui. A equipa passa a escolher dentro do que ainda é possível fazer, e algumas oportunidades de melhorar ficam pelo caminho.

Por isso, considero que organizar a comunicação interna faz parte da responsabilidade de criar uma comunicação externa com qualidade. Os briefings, os prazos e as validações influenciam o tempo que temos para pensar, a liberdade para explorar e a capacidade de levar uma boa ideia até ao fim.

É por aí que começaria: garantir que as pessoas compreendem o que estão a construir e o papel que têm nesse trabalho. Antes de pedirmos ao público que perceba a nossa marca, precisamos de conseguir entendê-la entre nós.

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